No Sudoeste Goiano, os meses de junho, julho e agosto são normalmente caracterizados por baixos índices pluviométricos e pelo avanço da estação seca. Entretanto, nas duas últimas entressafras (2024 e 2025), algumas áreas da região receberam precipitações expressivas (30 a 80 mm) nesse período, favorecendo novos fluxos de emergência e desenvolvimento de plantas daninhas. Espécies como apaga-fogo (Alternanthera tenella), erva-quente (Spermacoce latifolia), buva (Conyza spp) e erva-de-santa-luzia (chamaesyce hirta) passaram a ocupar áreas em pousio, talhões com cobertura insuficiente e espaços abertos dentro da palhada.
Esse cenário exige uma mudança de posicionamento de estratégia de controle dessas plantas daninhas. Assim, o manejo não pode ficar concentrado apenas na dessecação realizada às vésperas da semeadura da soja. O manejo antecipado começa ainda na entressafra e tem três objetivos principais: controlar as plantas enquanto apresentam menor altura e se encontram predominantemente na fase vegetativa; impedir a produção de sementes e reduzir a pressão de infestação que chegará à cultura em sucessão. Trata-se de substituir uma atuação reativa, realizada diante de plantas em estádio reprodutivo ou submetidas a condições de estresse, por um programa de manejo planejado ao longo de todo o sistema de produção.
A buva exemplifica bem essa necessidade. Plantas jovens são mais sensíveis aos herbicidas, enquanto indivíduos maiores, ramificados ou em fase reprodutiva apresentam maior desafio de controle, devido a ocorrência do rebrote, exigindo aplicações sequenciais. Além disso, deixar plantas daninhas produzirem sementes durante o pousio aumenta o banco de sementes do solo e transfere um problema da entressafra para as safras seguintes.
Em um experimento conduzido no Centro Tecnológico Comigo (CTC) em área de pousio com capim-ruziziensis (Brachiaria ruziziensis) já estabelecido e com máximo acumulo de matéria seca, foram avaliados diferentes tratamentos para o controle de buva e erva-de-santa-luzia. Aos 36 dias após a aplicação (DAA), os melhores resultados de controle, ocorreram nas associações de herbicidas auxínicos (fluroxipir, triclopir e 2,4 D) com o saflufenacil (35 g i.a ha-1).
As misturas de [Fluroxipir (160 g e.a. ha-1) + triclopir (480 g e.a. ha-1)] + saflufenacil; fluroxipir (300 g e.a. ha-1) + saflufenacil; e triclopir (720 g e.a. ha-1) + saflufenacil proporcionaram valores próximos a 100% de controle das duas espécies. 2,4 D (1005 g e.a. ha-1), + saflufenacil, atingiu 92% de controle da erva-de-santa-luzia e 85% da buva. Em comparação, os herbicidas auxínicos aplicados isoladamente apresentaram controle entre 67% e 77% da erva-de-santa-luzia e entre 33% e 70% da buva, o que evidencia a importância de associar um herbicida inibidor da PROTOX como é o caso do saflufenacil aos herbicidas auxínicos para controle dessas espécies.
O experimento contemplou também as associações dos auxínicos (mesmas doses expostas anteriormente) com a terbutilazina (1000 g i.a. ha-1), os resultados mostraram comportamento mais variável. 2,4 D + terbutilazina alcançou apenas 20 e 15% de controle da erva-de-santa-luzia e buva, respectivamente. Fluroxipir + terbutilazina apresentou 79% e 77%; [fluroxipir + triclopir] + terbutilazina resultou em 90% e 60% de controle, enquanto triclopir + terbutilazina apresentou 92% e 70%. Portanto, misturar herbicidas não garante, por si só, aumento de eficácia: o resultado depende das moléculas associadas, da espécie de planta daninha, do estádio das plantas e das condições de aplicação.
O incremento no controle proporcionado pelo saflufenacil também demandou atenção. As associações contendo esse herbicida promoveram fitotoxicidade entre 15% e 25% no capim-ruziziensis aos 14 e 28 dias após a aplicação (DAA), mantendo níveis de 10% a 15% aos 36 DAA. Em contraste, os demais tratamentos não apresentaram sintomas visuais de injúria. Assim, o tratamento com maior controle das plantas daninhas nem sempre será automaticamente o mais seguro, do ponto de vista de seletividade. Para realidade do sudoeste goiano, onde as temperaturas são mais amenas e umidade relativa um pouco mais altas nessa época do ano, as injúrias causadas tem capacidade de recuperação, no entanto para regiões mais quentes como é o caso do vale do Araguaia a capacidade de recuperação da braquiária pode ser comprometida.
O primeiro passo é monitorar as áreas após a colheita da safra ou safrinha e, principalmente, depois das chuvas. Uma área considerada limpa no outono, após chuvas esporádicas, pode apresentar fluxos de emergência de plantas daninhas semanas depois, e permanecer com plantas produzindo sementes durante o período de inverno. O momento mais favorável para intervir ocorre antes que as plantas atinjam estádios avançados ou iniciem a produção de sementes.
A braquiária bem estabelecida deve ser tratada como parte do manejo integrado, pois ocupa o espaço, sombreia o solo e dificulta a emergência de algumas espécies. Entretanto, a cobertura vegetal não elimina completamente a necessidade do controle químico, especialmente em falhas de estande onde as plantas daninhas irão germinar. Nessas situações, herbicidas pós-emergentes, produtos com atividade residual e aplicações sequenciais podem ser ferramentas complementares, desde que tecnicamente posicionados.
Também é necessário rotacionar mecanismos de ação e evitar que o programa dependa repetidamente das mesmas moléculas. A escolha deve considerar as espécies presentes, o tamanho das plantas, a cultura subsequente, o intervalo entre aplicação e semeadura e a preservação da cobertura. Os resultados deste experimento são referências para as condições avaliadas e não constituem recomendação isolada de uso.
As chuvas fora do padrão durante a entressafra aumentam o risco de emergência, desenvolvimento e produção de sementes de plantas daninhas. Adiar o início do controle para próximo da semeadura reduz as opções de manejo, pois concentra as operações em uma janela já limitada. Além disso, alguns herbicidas, como o triclopir, exigem um intervalo maior entre a aplicação e a semeadura, geralmente de 20 a 30 dias, o que pode restringir seu uso quando o manejo é realizado tardiamente.
O manejo antecipado distribui as intervenções ao longo da entressafra, mantém as plantas em estádios mais favoráveis ao controle e ajuda a proteger o potencial produtivo da cultura seguinte. Mais do que antecipar uma aplicação, significa manejar o sistema para que a soja seja implantada em uma área efetivamente limpa e com menor pressão de reinfestação.
Dr. Valter Vaz
Pesquisador Agronômico – Centro Tecnológico COMIGO (CTC)
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