Balanço de safras e perspectivas

23 de agosto de 2026

Balanço de safras e perspectivas

Soja e safrinha de milho fecham ciclo com produção geral forte, mas rentabilidade exige cautela

 

Por Pedro Cabral

 

A safra de soja 2025/26 e a segunda safra de milho, conhecida como safrinha, chegam ao fim em um cenário de produção relevante, mas com pressão sobre a rentabilidade do produtor. De um lado, produtividade e oferta seguem sustentando a força  do agronegócio brasileiro e goiano. De outro, custos de produção mais elevados, crédito caro e comportamento dos preços das commodities exigem maior cautela nas decisões para o próximo ciclo.

De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção brasileira de grãos na safra 2025/26 está estimada em 360,8 milhões de toneladas, crescimento de 2,4% em relação à temporada anterior. Dentro desse cenário, soja e milho mantêm papel de destaque na produção nacional.

Em Goiás, a safra de soja 2025/26 mantém o Estado entre os principais produtores nacionais. A Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) estima produção de 20,1 milhões de toneladas, o segundo maior volume da série histórica, com produtividade média de 3,9 toneladas por hectare.

No caso da segunda safra de milho, o cenário foi mais heterogêneo. Embora a produção nacional de milho deve alcançar um novo recorde na temporada 2025/26, em Goiás algumas regiões enfrentaram restrições climáticas que afetaram o plantio e o desenvolvimento da safrinha. A Conab estima a produção brasileira de milho próxima de 143 milhões de toneladas.

Os números de produção, porém, precisam ser analisados em conjunto com os custos específicos dessas duas culturas. Levantamento realizado pela própria área de insumos da COMIGO aponta pressão sobre os custos da soja e do milho, provocada principalmente pelo aumento das despesas operacionais e pelo comportamento dos preços das commodities. Na soja, os insumos registraram acréscimo estimado de 5%, sem considerar os custos operacionais. No milho, a alta foi de aproximadamente 6,6%, também sem incluir essa parcela. Segundo o departamento técnico da cooperativa, parte desse aumento está relacionada aos ajustes de impostos e tributos incidentes sobre os insumos, como PIS e COFINS.

Nos custos operacionais, a elevação estimada pela COMIGO fica entre 8% e 9%, com variações de acordo com a localização e as características de cada propriedade, como arrendo, por exemplo. O frete também representa uma fonte relevante de pressão, já que seu impacto depende da distância percorrida e das variações na tabela da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

 

Análise do cenário

 

Nesse cenário, mais do que a elevação isolada dos preços dos insumos, o principal ponto de atenção para a rentabilidade da soja e da safrinha de milho está na combinação entre custos operacionais mais altos e o comportamento dos preços das commodities. Essa relação pode limitar as margens das próximas safras.

Para o presidente do conselho de administração da COMIGO, Antonio Chavaglia, essa é justamente a conta que precisa estar no centro das decisões do produtor. “Foi uma boa safra de soja em produtividade, mas a safrinha já foi ruim aqui na região, então precisamos saber quanto custou para produzir e quanto sobrou para o produtor. É essa conta que interessa”, avalia.

A avaliação ganha relevância diante do cenário observado em Goiás. Apesar da produtividade elevada na soja, o custo de produção na região chegou a R$ 5.602,89 por hectare, segundo levantamento da Seapa. Na safrinha de milho, o impacto climático também entrou na equação. A janela de plantio e a disponibilidade de água foram determinantes para o desempenho das lavouras em diferentes regiões de Goiás, fazendo com que os resultados variassem entre as áreas produtoras.

 

Perspectivas para próximas safras

 

Com o encerramento da safra de soja 2025/26 e da safrinha de milho, a atenção agora se volta para o planejamento dos próximos ciclos. Custos, preços, crédito, clima e produtividade continuarão determinando o resultado das lavouras. 

Na avaliação de Chavaglia, o produtor tende a adotar uma postura mais cautelosa, mas sem abrir mão de investimentos que tragam retorno. “O produtor precisa produzir bem. O que ele não pode é gastar sem planejamento. É diferente. Hoje, ele precisa saber onde cada real investido”, afirma.

O crédito é outro ponto de atenção. Mesmo com mudanças na política monetária, a Selic permanece em patamar elevado, aumentando o custo de capital para produtores e empresas. Para Chavaglia, o desafio do Plano Safra 2026/27 – R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial e R$ 85,2 bilhões para o Pronaf – não está apenas no volume anunciado que não acompanha as altas nos custos, mas na capacidade de transformar os recursos previstos em crédito efetivamente acessível ao produtor, com condições compatíveis com a atividade.

“O principal é saber se o dinheiro vai chegar na ponta e qual vai ser o custo efetivo desse dinheiro. Não adianta anunciar bilhões de reais se o produtor não consegue acessar o recurso na hora em que precisa e ainda tem que arcar com juros muito altos”, afirma Chavaglia

Dessa forma, a tendência é de maior seletividade nas decisões. A tecnologia continua sendo fundamental para preservar produtividade, mas cada investimento precisa ser analisado pelo retorno que pode gerar. “O produtor vai ser mais cauteloso. Mas eu não acredito que o caminho seja deixar de usar tecnologia. O caminho é fazer uma agricultura mais eficiente”, afirma o presidente.

É nesse cenário que a atuação da cooperativa ganha importância. Segundo Chavaglia, “a COMIGO tem papel não apenas no fornecimento de insumos e no recebimento dos grãos, mas também na armazenagem, industrialização e comercialização, e até nas pesquisas que ajudam o produtor a produzir melhor”.

Além disso, a estratégia de agregação de valor vem sendo ampliada pela cooperativa, que investe em uma nova esmagadora de soja e deve dobrar sua capacidade. “Quanto mais conseguirmos agregar valor à produção, industrializar, melhorar a comercialização e oferecer condições para o produtor investir melhor e produzir melhor, mais conseguimos contribuir para a rentabilidade do cooperado”, explica Chavaglia.