A produção de soja no sudoeste goiano depende diretamente da fixação biológica de nitrogênio (FBN) para sustentar elevados patamares de produtividade. Considerando que a soja extrai cerca de 80 kg de N por tonelada de grãos, a adoção de inoculantes contendo Bradyrhizobium é prática indispensável para reduzir custos com fertilizantes nitrogenados e assegurar o equilíbrio nutricional da lavoura. Além da inoculação, tecnologias como a coinoculação com Azospirillum, uso de micronutrientes e elementos benéficos, têm ampliado a eficiência do processo simbiótico e a resiliência das plantas frente a estresses edafoclimáticos.
- Bactérias Fixadoras de Nitrogênio e Funções
As principais espécies utilizadas em inoculantes comerciais de soja no Brasil são Bradyrhizobium japonicum e B. elkanii. Essas bactérias infectam as raízes e induzem a formação de nódulos, estruturas especializadas onde a enzima nitrogenase reduz o N₂ atmosférico a amônia. O nitrogênio fixado é rapidamente assimilado pela planta e transportado, predominantemente, na forma de ureídeos, que circulam na seiva até a parte aérea.
Esses compostos são então metabolizados e convertidos em aminoácidos e proteínas, que sustentam o crescimento vegetativo e a formação de grãos. A simbiose garante suprimento contínuo de N durante todo o ciclo, reduzindo ou até mesmo dispensando adubações nitrogenadas.
As espécies Bradyrhizobium japonicum e o Bradyrhizobium elkanii, apresentam diferenças importantes para o manejo, as quais devem ser consideradas.
- B. japonicum: reconhecido pela alta eficiência na fixação de nitrogênio, garantindo maior aporte de N por nódulo. No entanto, é mais sensível a estresses ambientais, como acidez, altas temperaturas e defensivos usados no tratamento de sementes.
- B. elkanii: apresenta maior resistência a estresses (acidez, calor, salinidade e químicos), por isso é amplamente utilizado em Tratamento de Sementes Industrial (TSI). Porém, sua eficiência de fixação é menor em comparação à outra espécie.
Na prática: O B. elkanii possui maior indicação para o uso no tratamento de sementes (TS) industrial (TSI), pois suporta melhor as condições das misturas com defensivos e o tempo de armazenamento das sementes. Em áreas já consolidadas de plantio de soja, recomenda-se a cada safra realizar a REINOCULAÇÃO, utilizando pelo menos 1 dose do inoculante nas sementes (independente da espécie escolhida) e complementar com 3 a 6 doses do B. japonicum, aplicadas diretamente no sulco (jato dirigido), garantindo a presença e sobrevivência de bactérias de alta eficiência durante a safra.
Recomendações específicas:
Solos que passaram por queimadas, solos arenosos ou de primeiro ano de cultivo exigem atenção especial. Nesses casos, além do inoculante no TS ou TSI, é recomendável adicionar doses extras de B. japonicum no sulco (>10 doses), garantindo boa colonização inicial para a nodulação efetiva. O uso adicional de B. elkanii não deve ser feito de forma empírica, pois essa espécie é altamente competitiva. Por isso, caso seja observada a necessidade de utilização, o ideal é verificar a compatibilidade entre os inoculantes comerciais, ou lançar mão daqueles que já tragam formulações testadas e balanceadas entre as diferentes espécies.
- Diferenças entre tratamento de sementes e jato dirigido (sulco de semeadura)
- Tratamento de sementes (TS ou TSI): o inoculante fica aderido à superfície da semente, garantindo contato imediato entre bactéria e raiz no momento da germinação.
- Jato dirigido no sulco de semeadura: o inoculante é diluído em maior volume de água e distribuído no solo, ficando sujeito a perdas por contato com o solo, competição microbiana e condições de umidade.
Por isso, para garantir que a quantidade de células bacterianas viáveis por semente seja equivalente, é necessário aumentar a dose quando se usa o jato dirigido.
Recomendação prática
- Regra geral: Quando a inoculação é feita no sulco de semeadura, deve-se aplicar de 2 a 3 vezes a dose recomendada para o tratamento de sementes, para compensar a menor concentração de células bacterianas junto à semente e garantir nodulação adequada.
- Atenção importante: Se o inoculante utilizado já possui recomendação específica para aplicação no sulco, deve-se seguir a bula. Caso não haja indicação, adota-se a regra prática de multiplicar a dose por 2 ou 3 em relação à recomendação do TS.


- Figura 1- inoculação no sulco de semeadura via jato dirigido e no tratamento de sementes industrial (Sementes COMIGO).
- Importância da coinoculação com Azospirillum brasilense
A coinoculação da soja com Bradyrhizobium e Azospirillum brasilense tem se consolidado como uma tecnologia de alto impacto na agricultura brasileira. O A. brasilense atua como bactéria promotora de crescimento vegetal (PGPR), potencializando o desenvolvimento da cultura por mecanismos complementares.
As duas estirpes mais utilizadas, Ab-V5 e Ab-V6, desempenham funções distintas e complementares, podendo ser aplicadas em conjunto. A Ab-V5 apresenta maior capacidade de fixação de nitrogênio, contribuindo para reforçar a FBN. Já a Ab-V6 se destaca pela elevada produção de fitormônios, principalmente auxinas, que estimulam a emissão de raízes laterais e pelos radiculares. O uso conjunto dessas cepas resulta em plantas com sistema radicular mais robusto, maior eficiência de nodulação e absorção de nutrientes, além de ganhos consistentes em produtividade.
Vantagens da coinoculação
- Maior vigor inicial: raízes mais profundas e ramificadas, aumentando a capacidade de exploração do solo.
- Incremento produtivo: estudos mostram incrementos médios de 3 a 16% na produtividade da soja, com maior estabilidade em diferentes ambientes.
- Maior tolerância a estresses: plantas coinoculadas apresentam maior resiliência a veranicos, solos arenosos ou de baixa fertilidade.
- Eficiência nutricional: melhor aproveitamento de fósforo e micronutrientes, além de suporte adicional à FBN.
- Flexibilidade de uso: pode ser aplicada via tratamento de sementes ou no sulco, ampliando as estratégias de manejo.
Pontos de atenção
- Compatibilidade com defensivos: como se trata de microrganismos vivos, é necessário cuidado com misturas no tratamento de sementes. Quando aplicados no sulco, recomenda-se dobrar a dose recomendada no TS para compensar a diluição no solo.
- Respeito à dose recomendada: no caso da Ab-V6, doses excessivas podem causar competição entre demais microrganismos no solo, e por ser forte produtora de fitormônios, podem inibir o crescimento radicular em vez de estimular.
- Ambiente de resposta: em áreas de alta fertilidade e clima favorável, o efeito adicional da coinoculação pode ser menos efetivo.
- Qualidade do inoculante: sempre utilizar produtos registrados e com cepas certificadas (Ab-V5 e Ab-V6), garantindo concentração adequada de células viáveis.
- Estratégias de Manejo Integrado para Potencializar a Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN)
A eficiência da FBN na soja não depende apenas da qualidade do inoculante, mas do manejo integrado do solo, da nutrição e do ambiente onde os microrganismos se estabelecem. Práticas de correção, adubação equilibrada, rotação de culturas e conservação do solo são determinantes para maximizar os benefícios da simbiose com Bradyrhizobium e da coinoculação com Azospirillum.
Calagem
- Função: corrige a acidez, eleva a saturação por bases e reduzo alumínio tóxico, fatores críticos para a sobrevivência e a eficiência dos rizóbios.
- Impacto: aumentam a disponibilidade de cálcio e magnésio no perfil, melhorando o ambiente radicular e favorecendo a nodulação e a atividade da nitrogenase.
Plantio direto e cobertura do solo
- Função: mantêm a umidade, reduzem a amplitude térmica e protegem as bactérias fixadoras contra condições adversas.
- Impacto: criam um ambiente estável e biológico mais ativo, aumentando a sobrevivência das populações inoculadas entre safras.
Adubação equilibrada com fósforo e demais nutrientes
- Fósforo (P): essencial para a formação e funcionamento dos nódulos, por estar diretamente ligado à formação de raízes e ao metabolismo energético (ATP) necessário para a fixação do N₂.
Micronutrientes e elementos benéficos estratégicos via foliar
- Cobalto (Co): elemento benéfico, essencial para os rizóbios, participa da síntese de vitamina B₁₂, cofator ligado à produção de leghemoglobina, que regula o oxigênio nos nódulos. Sua presença garante nódulos ativos, maior eficiência da nitrogenase e melhor estabelecimento da simbiose soja–rizóbio.
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- Molibdênio (Mo): integra o centro ativo da enzima nitrogenase, fundamental para a redução do N₂ atmosférico am amônia, e também atua na enzima nitrato redutase da planta. É indispensável para a eficiência da fixação e assimilação do nitrogênio.
- Níquel (Ni): cofator da urease, essencial para assimilação dos ureídeos transportados da raiz para a parte aérea.
- Manganês (Mn): cofator da glutamina sintetase e da alantoato amidohidrolase, enzimas-chave na assimilação e no metabolismo dos ureídeos, formas de transporte do N na soja. Além disso, participa da fotossíntese, fornecendo energia para a nitrogenase.
- Magnésio (Mg): é o elemento central da molécula de clorofila, essencial para a fotossíntese e, consequentemente, para a produção de energia usada na fixação e assimilação do nitrogênio. Além disso, atua como cofator enzimático em reações do metabolismo de carboidratos e proteínas, e participa no transporte de fosfatos dentro da planta.
Figura 2- Nódulo inativo (coloração verde-esbranquiçada-leitosa) e nódulo ativo (coloração rosácea/avermelhada).
- Inoculação de emergência
É uma prática corretiva recomendada quando se observa baixa nodulação na soja durante os estádios iniciais do ciclo. Consiste na aplicação de altas doses de inoculante contendo Bradyrhizobium via barra de pulverização, até o estádio V6 da cultura (pré-fechamento). Para aumentar a eficiência, a operação deve ser realizada em condições climáticas favoráveis, preferencialmente no final da tarde ou à noite, quando a temperatura é mais amena e a radiação solar menos intensa, reduzindo a mortalidade das bactérias.
Figura 3- Raízes de soja com boa nodulação (presença de nódulos na coroa), e raízes de soja com baixa nodulação nos mesmos estádios de desenvolvimento.
A presença de alta umidade no solo e, idealmente, a ocorrência de chuva após a aplicação são fundamentais, pois favorecem a incorporação das bactérias ao perfil do solo e seu contato com a rizosfera. Quando bem conduzida, essa estratégia pode resgatar parte da eficiência da fixação biológica de nitrogênio, evitando perdas significativas de produtividade em lavouras com falhas de nodulação. Mas atenção, essa técnica não substitui a inoculação das sementes e/ou em sulco de semeadura, é apenas uma medida paliativa em casos de baixa eficiência dessas técnicas.
Conclusão
A eficiência da FBN na soja resulta da integração entre inoculação de qualidade, coinoculação com Azospirillum, nutrição equilibrada e manejo adequado do solo. Enquanto B. japonicum oferece maior eficiência na fixação, o B. elkanii garante resistência e viabilidade em condições de TSI, desde que se respeite o equilíbrio entre as espécies. A coinoculação com Azospirillum potencializa ainda mais o sistema radicular e a nodulação, ampliando a tolerância da cultura a estresses e incrementando a produtividade. Portanto, a adoção dessas práticas em conjunto assegura maior sustentabilidade, estabilidade e competitividade para a sojicultura no sudoeste goiano.
Dra. Amanda Magalhães Bueno
Pesquisadora agronômica em fisiologia e nutrição de plantas
