Equilibrando custos e eficiência para a safra 2026
O ano 2025 entrará para a história da Cooperativa COMIGO. Por um lado, pelo marco do seu cinquentenário, em que a cooperativa se consolidou entre as maiores do agronegócio, resgatou sua história e se mostrou pronta para o futuro. Por outro, o ano fica marcado pela complexidade do cenário econômico enfrentado pelo produtor rural: em um ano de produtividade elevada, mas com margens severamente achatadas pelo baixo preço das commodities e pelo alto custo dos insumos e do crédito, a busca pelo equilíbrio financeiro tornou-se a palavra de ordem.
Nesta entrevista exclusiva, o presidente da COMIGO, Antonio Chavaglia, faz um balanço do faturamento de R$ 14 bilhões, detalha as celebrações dos 50 anos da cooperativa e deixa um alerta fundamental: para atravessar 2026, o cooperado precisará de gestão na ponta do lápis e presença constante dentro da lavoura.
Informe COMIGO: O ano de 2025 foi um histórico para a COMIGO pelas celebrações do cinquentenário. Como foi para o senhor viver esse momento e o que isso representa para a cooperativa?
Antonio Chavaglia: Foi um ano de muitas atividades e emoções. Começamos com o lançamento do livro contando a nossa história, tivemos aquele show de drones mostrando o quanto a COMIGO está aliada à tecnologia, tivemos muitas festas e até um show exclusivo do Sérgio Reis, que veio para encerrar o ano com chave de ouro. Nós coroamos tudo recebendo o prêmio de melhor empresa do agronegócio pelo Valor 1000, justamente no ano do nosso cinquentenário. Tudo isso é fruto de um trabalho persistente dos cooperados, que enfrentam as dificuldades e continuam produzindo bem e trabalhando junto com a cooperativa. Também temos uma equipe que olha para a cooperativa com bons olhos, que luta para que ela seja fortalecida e que detém o conhecimento para dar respostas rápidas às demandas. Sem pessoas preparadas, especialmente com os avanços de tecnologias e toda essa automação eletrônica que temos hoje, não teríamos chegado aos 50 anos; a cooperativa já teria acabado.
IC: Agora, em relação ao setor, qual o balanço que o senhor faz do agronegócio em 2025?
AC: Foi um ano de uma safra muito boa de soja e também de milho, com recordes de produção. Só que os preços ficaram muito perto dos custos. Às vezes, o produtor tem uma boa produção, mas com os custos elevados ele não tem o resultado que esperava. Estamos vivendo um momento de preços das commodities mundiais muito baixos, o que traz incerteza e falta de tranquilidade, além do crédito caro. As produções mundiais têm sido muito grandes nos últimos anos e o comércio não tem absorvido com rapidez para reduzir os estoques de passagem. Isso traz um desconforto, com produtores tomando prejuízo em algumas regiões. Mas a COMIGO, dentro do planejamento estratégico, cumpriu e até superou as metas de recebimento de grãos. Foram mais de 63 milhões de sacas de soja, o que representa cerca de 16% a 17% da soja do estado de Goiás. No milho, a meta também foi cumprida e superada, recebendo pouco mais de 24 milhões de sacas, garantindo o volume necessário para a industrialização rodar até janeiro.
IC: E como o senhor avalia que será o ano de 2026, com o que já pode ser percebido em relação a essa safra que já iniciou?
AC: Temos um ano desafiador pela frente. Os custos financeiros estão muito altos e os insumos continuam caros em relação ao preço de venda dos produtos agrícolas. O plantio começou com desafios climáticos: algumas regiões foram favorecidas com chuva, outras menos. Isso aconteceu em diversos estados, gerando replantio e gastos extras para o produtor, que agora espera uma colheita razoável.
Tudo depende do clima. Se 2025 foi desafiador com produções boas mas preços baixos, imagine chegar em 2026 com uma produção menor e preços que não reajam para cobrir juros e insumos. Isso traz muita incerteza. Mas a COMIGO trabalha dando assistência e orientação para equilibrar isso dentro da propriedade, de forma que seja possível manter a atividade com uma rentabilidade aceitável.
IC: Considerando estes fatores, qual a previsão de faturamento da COMIGO para 2025?
AC: A expectativa de faturamento para 2025 é de R$ 14 bilhões. É um número que conseguimos crescer em relação ao ano passado, enquanto outras empresas não conseguiram. Isso é resultado de um conjunto: setor de grãos, industrial, rações, suplemento mineral, insumos agrícolas e todas as atividades da cooperativa, justamente por conta da cooperativa atuar em todas essas áreas, em que uma supre a outra.
Para o ano que vem, planejamos crescer um pouco mais, mas dependerá da safra de soja e milho. A cooperativa está bem estruturada contabilmente e planejada estrategicamente. Precisamos que tudo corra bem, pois o setor agrícola de forma geral não aguenta viver eternamente com recuperações judiciais de produtores e empresas e isso pode afetar a cooperativa, por que estamos no mesmo mercado. É preciso equilíbrio para que todos tenham renda.
IC: Esse faturamento demonstra que o cooperado tem sido atuante. Por que o produtor tem buscado tanto a cooperativa em momentos de dificuldades do setor, como vimos neste ano?
AC: O produtor está de olho no custo e confia na COMIGO. Nós garantimos a qualidade. Não trabalhamos com “pool” de insumos de diversos lugares; fazemos o transporte em caminhões próprios para ter certeza de que o que compramos é o que entregamos. Existe muita pirataria de químicos e adubos no Brasil e a fiscalização não acompanha. O cooperado sabe que na COMIGO, além de preço justo e retorno por ser associado, ele tem segurança contra falsificações que podem destruir o resultado de uma safra.
Além disso, a cooperativa trabalha dando toda a assistência e orientação para que o trabalho dentro da propriedade seja equilibrado e produtivo. Nossos agrônomos e veterinários são fundamentais nesse processo: eles mostram para o produtor todos os custos que ele tem na sua fazenda, como ele pode produzir melhor e como isso vai afetar no lucro. Com esses números na mão, o cooperado consegue fazer uma análise real antes de decidir suas compras. Além disso, em cada nova região que a COMIGO chega, ela vai para somar através da tecnologia e do suporte desses profissionais, ajudando a desenvolver o município.
IC: Inclusive, para aprimorar essa assistência técnica, teremos em breve uma nova unidade do Centro Tecnológico COMIGO no Vale do Araguaia, certo?
AC: Sim, será em Montes Claros de Goiás, em uma área de 15 hectares. É uma região com altitude e regime de chuvas diferentes, então precisamos entender quais são as cultivares e o manejo que melhor se adequa para que o produtor consiga produzir bem. Isso vai contribuir muito para a região do Araguaia.
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IC: O senhor mencionou a industrialização como um dos responsáveis pelo aumento do faturamento da cooperativa. Como estão os investimentos nessa área?
AC: Estamos fazendo três novos armazéns – um em Palmeiras, outro em Acreúna e também mais um no Cinquentão, em Santa Helena – e a nova indústria de esmagamento de soja em Palmeiras está dentro do cronograma e deve rodar em 2027. Já estamos trabalhando na capacitação das pessoas da própria região de Palmeiras em parceria com a prefeitura e entidades. É uma indústria totalmente automatizada e não queremos trazer gente de fora; queremos que a comunidade local se desenvolva conosco. Onde a COMIGO chega, ela vai para somar, levando tecnologia e assistência técnica. Com a nova indústria, vamos agregar valor e reduzir a dependência da venda direta do grão, e com isso o nosso faturamento deve chegar aos R$ 25 bilhões em 2028.
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IC: É uma meta de evolução financeira alta, qual a estratégia para sustentar esse crescimento?
AC: A empresa que não cresce, desaparece, porque os custos sobem todo ano. Isso é uma realidade mundial. A COMIGO sobe um degrau por ano com estratégia para enfrentar esses custos que aumentam de 5% a 10% anualmente. Por isso, estamos focados na industrialização, não está nem no planejamento abrirmos novas lojas até que a nova fábrica esteja concluída e funcionando. A soja vendida “in natura” durante a safra quase não dá resultado por causa do frete caro. Com a nova indústria em 2027, queremos vender muito pouco grão sem processar. Precisamos estar estruturados para que o custo de manutenção e operação não engula a margem do produtor, e a industrialização através da cooperativa é o caminho para tornar a atividade mais rentável.
IC: Para o agronegócio, qual é a avaliação dos cenários político e econômico atualmente?
AC: Vivemos em um país com incertezas econômicas. A inflação está baixa, mas os juros estão muito altos, o que desequilibra a economia. Além disso, o ano que vem é de eleição, o que pode ser tumultuado politicamente. O produtor quer equilíbrio e segurança jurídica, mas vemos momentos de insegurança que podem travar o setor.
O mercado interno está bem abastecido, com sobra de mercadorias. O produto brasileiro tem qualidade e mercado lá fora. O problema são os acordos internacionais mal cuidados, custos de frete e o pesado custo da porteira para fora.
Falta gestão estratégica política. Não se investe em ferrovias, por exemplo, que poderiam ajudar a baratear o custo de logística que é tão pesado para diversos setores. O governo investe pouco em infraestrutura e menos ainda no fomento ao agronegócio.
IC: Diante de tantas incertezas econômicas e políticas, qual a recomendação principal para o cooperado que inicia o planejamento para 2026?
AC: Organização financeira e cautela. O produtor precisa ter o custo na mão e saber a estratégia de vencimento dos seus negócios. O ideal é não fazer investimentos pesados ou compras grandes sem antes colher e saber o resultado real da safra. Esperar a produção chegar para ver o que sobra e pagar menos juros no banco é o segredo.
E o mais importante: ficar de olho na lavoura. É preciso entrar no meio do talhão para identificar pragas e doenças. Já vimos produtores perderem 30% da produção por falta desse cuidado.
Dessa forma, a cooperativa também seguirá dando apoio para o associado. Estamos aqui para trabalhar para que o setor continue superando os desafios e mantendo a sua rentabilidade, a expectativa é que as condições sejam melhores para alcançarmos estes objetivos. Desejo que 2026 seja um ano mais tranquilo e que a luz divina proteja nossas famílias.
