Queimadas e os impactos nas perdas de nutrientes

2 de setembro de 2025

Queimadas e os impactos nas perdas de nutrientes

Com a chegada da época seca, uma questão tira o sono dos produtores rurais: o risco da ocorrência de queimadas. Evidentemente, a situação gera preocupação e estado de alerta nos agricultores e pecuaristas que se unem para combater os incêndios nesta época seca. Porém, são registradas anualmente inúmeras ocorrências de fogo em propriedades rurais nas diversas regiões do Brasil. No ano passado, o longo período de estiagem causou sérios problemas a nível nacional, afetando os diferentes biomas do país.

Estes eventos causam diversos prejuízos e são absolutamente indesejados pelos agricultores. Sob o aspecto econômico, além dos danos materiais diretos que o fogo pode causar, como perdas de maquinários, edificações, rebanhos, dentre outros, podem ainda, indiretamente, impactar negativamente a produção agrícola por mais de uma safra.

Além dos danos diretos das queimadas, o fogo afeta significativamente a qualidade química, física e biológica do solo. Entre os principais prejuízos relacionados ao ambiente edáfico, destaca-se alguns pontos de atenção para as áreas de produção de grãos sob sistema de plantio direto, tais como: as perdas da cobertura de solo, perdas de nutrientes da palhada e eventuais perdas de corretivos e fertilizantes aplicados antecipadamente ao plantio.

Uma vez removida a cobertura vegetal da superfície do solo devido à queima da palhada, a qual funcionava como proteção física, visualiza-se um aumento nos riscos de erosão, ocorrência de altas temperaturas na camada superficial do solo, maior incidência de doenças e plantas daninhas, dificuldades em relação à nodulação da soja, além do estabelecimento inicial da cultura ser prejudicado. Além disso, a ciclagem de nutrientes da palhada entre culturas em sucessão acaba sendo impactada, podendo haver perdas totais ou parciais desses elementos, a depender da intensidade e duração do fogo na área. Os nutrientes remanescentes nas cinzas podem ainda ter sua solubilidade reduzida ou serem removidos do sistema com os ventos intensos desta época do ano.

Em termos práticos, as queimadas geram dúvidas aos produtores em relação ao manejo preventivo ou práticas corretivas para amenizar os efeitos nocivos do fogo, como exemplo: Preciso “nivelar” o solo para evitar a perda das cinzas pelo vento? Perdi os corretivos e fertilizantes que já haviam sido aplicados? Faço a niveladora como prática preventiva nos talhões que não queimaram? Quais são os principais nutrientes perdidos da palhada? Preciso reaplicar o calcário? Quais nutrientes podem ser perdidos nos fertilizantes que já foram aplicados?

Neste sentido, em resposta às principais dúvidas, alguns cuidados devem ser considerados como práticas preventivas e corretivas. Dentre as estratégias preventivas, ou seja, ações que ajudam a reduzir a ocorrência de incêndios, inclui-se o preparo de aceiros (faixa de segurança sem vegetação para evitar a propagação do fogo), evitar a queima de lixos e entulhos, evitar descarte inapropriado de latas, garrafas, “bituca” de cigarro, produtos inflamáveis, dentre outros materiais.

Para áreas que já foram afetadas pelo fogo, algumas práticas corretivas também são pertinentes e podem ajudar a amenizar os danos à qualidade do solo e, consequentemente, ao rendimento das culturas. São alguns exemplos de práticas que podem ajudar na atenuação dos danos ocasionados pela queimada a inclusão de práticas das adubações com os nutrientes que estão mais sujeitos às perdas por queimadas, como exemplo, boro e enxofre; definir adequadamente a estratégia de correção e adubação como um todo (fonte, dose, forma e momento de aplicação) para uso eficiente de nutrientes em cada cenário; realizar análise de solo; ajustar doses de inoculantes e número de sementes por metro.

Em relação à prática de “nivelar” para não perder as cinzas remanescentes, deve-se avaliar caso a caso e não serem adotadas de forma generalizada, assim como qualquer outra prática agronômica. Diante disso, é fundamental que o produtor procure assistência técnica especializada para não se precipitar na tomada de decisão e ser mais assertivo no manejo pós-queimada, evitando perdas de produtividade e rentabilidade a curto, médio e longo prazo. O CTC dispõe de diversos ensaios que visam gerar informações e ferramentas seguras para os nossos técnicos e cooperados, trazendo soluções frente à este e outros desafios que surgem a cada safra.

 

Leonardo Fernandes Sarkis

Pesquisador Agronômico – Centro Tecnológico COMIGO